sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

GADO HUMANO


Caminho pelo Centro à procura de uma loja especializada em eletrônica. Aí percebo que caí numa emboscada. Com suas ruas estreitas, o povo andando devagar, o jeito é descer a calçada. Então, a primeira advertência:
- Sai da frente, seu...
Um motoqueiro maluco quase me pega em cheio. Mas a peça para a minha TV é importante. E vou em frente. Mas logo sou parado por uma moça simpática que puxa conversa:
- O senhor não tem vontade de botar o seu próprio negócio?
E sem responder, ela emenda:
- Eu posso lhe oferecer um empréstimo pra isso!
Peço desculpas e caminho. Mas por pouco tempo. Logo sou puxado pelo braço por um desconhecido:
- Dentista a preço popular e fica logo aqui atrás...
Sorrio. Não para mostrar que não sou banguelo, mas por puro medo. Afinal, na rua paralela acabara de ter acontecido um assalto.
Penso que é melhor voltar pra casa. Mas novamente sou abordado por uma empregada da irmã Liduina que diz que estou “carregado” e tenho que fazer um “ descarrego”.
Prometo que vou, e quase ia mesmo para saber se ainda restava alguma possibilidade de chegar a loja eletrônica e comprar a tal peça da minha TV.
 De repente, percebo uma multidão correndo em minha direção aos gritos:
- Pega o ladrão, pega o ladrão!
 Sou obrigado a voltar pra casa. Mas no meio do caminho não tinha uma pedra. Tinha era um choque entre um ônibus e uma ambulância.
Caminhei rumo à minha casa e passei pelo Frotão. E guardo na memória a imagem que vi daquele hospital:
lembra um acampamento de guerra.
Ali, o povo parece mais gado humano.
Vale repetir.
E com eco:
Gado humano, gado humano, gado humano...

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