sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Defunto amado



Seu Maciel não tinha papas na língua. E quando era perguntado o porquê de gostar tanto de pegar nas alças do caixão e levar o defunto até a cova, era categórico:
-Desde rapazinho que peguei o gosto de acompanhar tudo que é defunto!
Um menino entrou na bodega onde estava o seu Maciel e falou aos berros:
-Socorro, acuda, o seu Pacheco tá passando mal!
O que é que ele tá sentindo? Fala, menino!
Eu num sei direito! Mas a mulher dele disse que ele tava se entortando!
Então o caso é grave! Eu vou logo providenciar o meu paletó!
- Mas seu Maciel, o homem ainda num morreu!
- Num morreu, mas vai morrer! Essa doença antigamente era chamada de trombose!     Agora é AVC!
O caixão saiu pelas ruas do bairro, já que o cemitério era próximo. O homem já     estava impaciente. Já avistava o cemitério  mas nada de pegar na alça do caixão. Sempre que insistia levava um não:
- Obrigado, não é preciso!
E quando tentou pela última vez e recebeu mais um não, se invocou. Parou e falou bem alto:
- Podem enterrar esse defunto fuleiro!! Eu já enterrei as maiores autoridades aqui do bairro, tão ouvindo, magote de safado?
 Foi detido por policiais, mas logo liberado.
 Está internado em hospital psiquiátrico com um diagnóstico inusitado: “Morbidez aguda”.

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